sexta-feira, 8 de maio de 2009

Rede de vida


Deitada na rede de pano deixo o meu corpo baloiçar, o meu cabelo brincar com o vento, e o meu vestido dançar com o ar.
Fecho os olhos. Sonho e acordo.
Deixo que o Sol encontre a minha pele, espero que me aqueça por dentro e por fora. Talvez assim, se distribua em mim este lume de receios que enche o meu coração.
Agarrar em tudo quanto amo e quero bem. Proteger, cuidar e fazer feliz.
Faço com que a rede balance mais do que o peso do meu corpo a faz mover. Ao alcance dos meus olhos, a nuvem branca aparece e desaparece à medida que a rede vai e vem.
Secretamente, desejo intimamente poder ser eu a ditar o vai e vem da vida. Indo tudo o que de mal viesse, vindo tudo o que de bom está para vir.
São muitos os caminhos por onde posso seguir, mas juro escolher os que mais perto de vocês me levarem. Neste vai e vem da vida.

Palavras

As palavras ecoam na mente.Leves, soltas, sós.
Somam-se ao vazio e silenciosamente gritam. Não vão mais além.
Os nós apertados soltam-se, o significado perde-se no ar, o horizonte desaparece.
A janela insiste em não abrir e mais nada ecoa nem voa.
Os passos desvanecem por entre o algodão, ninguém está presente.
O céu está mais alto, o futuro mais longe, o presente mais pesado.
Só as palavras ecoam na mente. Leves, soltas, sós.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Faz-me tua

Fecho os olhos e é como se ganhasse asas. Os pensamentos levam-me exactamente onde quero ir.
Sinto a areia, oiço o mar, solto gargalhadas e faço corridas em direcção ao infinito finito.
Sinto o Sol queimar-me a pele, tatuando o biquini nos contornos do meu corpo.
Os pensamentos levam-me onde quero ir e ser o que não quero, mas posso ser.
E ali, onde estou, não sou de ninguém. Sou minha, sou eu.
Dou grandes passeios e grandes mergulhos. Faço castelos na areia, sem príncipes nem princesas. Salto e danço. Caío e levanto-me porque a areia é movediça. Sorriu e riu, mas não me dou, porque sou minha, sou eu.
Ao abrir os olhos, perco as asas e sopro as penas. Vou deitar-me, mas não fecho os tapasóis, vejo e sonho estrelas e luas. E os sonhos levam-me exactamente onde quero ir e ser o que não quero, mas posso ser.
A saltar de nuvem em nuvem o Sol e a Lua em sopro de segredo confessam-me serem amantes eternos, como seria de desconfiar pelo lume que queima em cada um dos seus encontros, em cada eclipse.
A saltar de nuvem em nuvem o Sol e a Lua confessam-me serem amantes eternos e faço disso uma canção.
Vem conhecer a praia dos meus pensamentos, soltar gargalhadas, fazer corridas, sentir o Sol, dar grandes passeios e mergulhos, fazer castelos e ser deles príncipe e fazer de mim a princesa que sou, dançar e saltar, sorrir e rir.
Vem conhecer a praia dos meus pensamentos e faz-me tua.
Adormece-me e conhece os meus sonhos. Vem saltar de nuvem em nuvem e fazer do amor eterno do Sol e da Lua o nosso amor, e fazer dele a canção da nossa dança.

Jardim de sonhos

Dentro de mim tudo foi alvoroço, dentro de mim tudo sentiu a (tua) chegada.
Dancei na palma da tua mão. Dancei para ti, mas nunca conheceste a minha dança.
Fechaste os olhos de cansaço, enquanto eu dancei na palma da tua mão, para ti.
Hoje, hoje, danço no jardim dos meus sonhos, ansiando pela palma dessa mão que se fechou.
Danço por entre rosas, de todas as cores, mas só faço piruetas ao passar pelas rosas vermelhas, por serem as rosas plantadas dos ramos que me ofereceste.
O Sol bate na minha pele branca, recria a minha dança no chão do jardim dos meus sonhos. Eu danço, a sombra dança só tu não danças nem vês dançar.
Hoje, hoje danço no jardim dos meus sonhos.

sábado, 28 de março de 2009

Tempo em tempestade

Pensamentos imensamente vazios de tão cheios. Levantar os olhos, fechar os livros, um a um, olhar mais alto, ver mais e melhor.
Procurar um outro horizonte.
Definir outros conceitos, planificar outras experiências. Sorrir só por sorrir e soltar gargalhadas até que o seu eco se perca de tão alto que as darei.
Abrir a mão deixar cair a flor, ou pétala a pétala. Abrir a mão e deixar que se perca tudo o que se perde. Fechar a mão à queda da última pétala. Implacável como a vida.
Seguir em frente, passo acelerado que atrás vem gente e tempo e eu só te quero a ti e a vocês e tempo, tempo não o tenho.
Abrir todas as janelas da casa e deixar as portas baterem, estremecer com o mundo exterior para que o interior desperte e volte a ser real. Que de tanta fragilidade congelou.
Fechar os olhos aos raios de sol que me batem de frente, abrir os olhos à noite que cai.
Perdi-me e encontrei-me, nesses abraços que de tão abertos dão-me espaço para ficar ou ir se quiser seguir a força do vento e virar costas ao que foi.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Erros frios

É noite e o ar é frio. O arrepio percorre toda a pele desde a base do pescoço até as plantas dos pés, primeiro atrás depois a frente do corpo. É noite e a vista da varanda não é a mesma que de dia.
Na cama, adormecido num sono profundo, estava Ele.
A camisa da noite de seda apurava todos os seus sentidos, naquela noite, em que precisava precisamente que todos os seus sentidos fossem atraídos de tal forma que de cansada também podesse adormecer.
Na cama, adormecido num sonho profundo, estava Ele. Ele. Ele.
Deixara de o conseguir definir desde a última zanga. Deixara de o conseguir definir desde a última quebra de confiança. Ele…
O ar soprou num tom ainda mais frio e voltou a provocar-lhe um arrepio, ao mesmo tempo que do rosto se separavam lágrimas salgadas que lhe molhavam o rosto, e continuavam o seu percurso seguindo a linha do seu pescoço fino, até atingir a seda da sua camisa onde se dispersaram como se tivessem encontrado o que procuravam há muito.
Também ela pensara ter encontrado o que há muito procurava, com o qual até sonhava ainda que não de forma permanente. Mas , desde aquela discussão tudo estava em certezas de pena, incertezas de ferro.
A Lua e o Sol estavam alinhados. Metade por metade. O novo dia estava por nascer, e sem se aperceber tinha estado, todo aquele tempo, estática na varanda da sala, para que Ele não acordasse.
Nesse instante sorriu. E sentiu vontade de voltar a encontrar-se no corpo Dele.
Voltou para a cama, do sono profundo Ele despertou para a realidade do sonho que estava a seu lado, e mesmo sem abrir os olhos como conhecendo de cor todos os contornos do corpo Dela levantou o braço para que Ela se deitasse e voltou a fechá-lo mal a sentiu encostar-se ao seu corpo.
Foi naquele abraço que o ferro transformou todas as incertezas em penas que voaram de tanta leveza. Foi naquele abraço que recuperou forças e percebeu que todos nós erramos, mas esses erros não nos fazem deixar de sermos quem somos. São apenas erros, que quem nos ama tem que saber ou aprender a perdoar.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Dança da Vida

A cada pirueta no ar aprendo a olhar em frente. A cada queda volto a ter medo de tirar os olhos do chão.
A balança mantém-se equilibrada.
Os dias sucedem-se, eu sigo a dança. Entre espelhos e reflexos, entre sombras e sobreposições deixo que o meu corpo fale, cante e dance ao som do movimento da (minha) vida.
Entre o cansaço que me afasta do meu ser, entre o cansaço que me faz sentir fora de mim mesma, fui dominada pela melancolia no olhar e no estar desta cidade. Como se uma rotina imensa domina-se todos os meus pensamentos, gestos e passos. Ainda assim, sigo entre a multidão, ansiando chegar ao outro lado da ponte. Do outro lado, onde vou finalmente respirar ar puro, e encher o meu espírito de ti.
Enquanto esperas, não deixes de me estender a mão, nem de me oferecer esse teu sorriso rasgado que ilumina este caminho que sigo.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Espero pelo Sol

Hoje, esperei pelo Sol. Hoje, sentei-me na mesma cadeira de sempre, junto à janela. Hoje, esperei pelo Sol.Hoje, o Sol não veio.
Tudo permaneceu cinzento e sombrio. Dentro e fora de mim. Logo agora que eu preciso de luz.
Sorrisos grandes e pequenos, por simpatia e espontâneos. Abraços pequenos e grandes, mais e menos apertados. Olhares demorados ou rápidos, claros e escuros. Não importa, só importa que sejam os vossos sorrisos, os vossos abraços, os vossos olhares.
Desconheço tudo o que se passa dentro de mim, mas sei que também já não há sol. Tudo permanece cinzento e sombrio.
O céu acabou de ficar ainda mais escuro, dizem que anoiteceu. Agora, espero pelo Sol neste céu que desde que me sentei nesta cadeira se aproxima cada vez mais do meu interior.