segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Não demores

Nunca te disse mas adoro olhar para ti enquanto dormes. Quando dormes o teu rosto conquista a serenidade plena. Quando dormes o teu corpo apresenta-se deslumbrantemente esculpido. Quando dormes apaixono-me de novo.
Só te peço que não demores a voltar, a espera faz-se longa, a noite faz-se fria e eu faço-me tua. Cada vez mais tua. Tudo o que sou e quero ser a ti pertence.
Fazes-me falta a cada segundo que se acrescenta na minha vida.
Esta noite não vou adormecer, não vou acordar, não vou sentir-me completa. Não demores a voltar. Não demores a adormecer-me. Não demores a preencher-me.

domingo, 28 de setembro de 2008

Não sei bem

Não sei bem. Não tenho a certeza, mas, talvez seja esta a lei da vida. A lei das partidas e dos regressos. A lei das despedidas e dos reencontros. As partidas são escuras e frias. Os regressos demoram a chegar. A saudade é uma constante. Em cada despedida perco um pouco de mim e de vocês. Em cada reencontro recupero-me, recupero-vos.
Há opções na vida de cada um de nós que assumimos como nossas, no entanto, não fomos nós que as escolhemos. Na verdade, não sei bem quem as tomou, se a vida se o destino, mas sei o peso que estas opções tiveram, têm e terão no meu ser, na construção de quem sou e serei.
E os sorrisos perdem-se, e as lágrimas ganham vida, e a vida corre.
Espalho fotografias, momentos, sentimentos. Espalho-vos. Espalho-me. Espalho o meu ser.
Tenho medo, muito medo. Tenho medo de tudo! A cada passo meu, o coração dispara e o receio aumenta.
Quero recuperar o que ficou para trás. Quero a minha paz. Quero a minha serenidade.
Peguem-me na mão. Façam o meu ser parar de tremer.
Segurem-me, porque não sei bem coisa nenhuma, e não sei lidar com isso.


sábado, 20 de setembro de 2008

A cor da vida


Segue a linha, contorna o tracejado. Não o ultrapases. Escolhe a tua cor e pinta a vida. Evita os riscos. Prepara-te para os burrões, mas não desanimes serão inevitáveis. Liberta a criatividade, solta a ambição. Desenha, e aperfeiçoa sempre que possível o traço. Deixa-te aprender e tenta sempre fazer melhor.
Tu serás o autor dos teus quadros, tu serás o único responsável por eles. Pinta o que serás e sentir-te-ás orgulhoso de ti próprio.
Não procures aprovação do mundo para a tua inspiração, apenas vive-a. A vida.
Afinal de contas pintar é fácil e viver a vida, ainda mais. Queres pintar?

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Nunca ninguém nos vai saber explicar o porquê de tudo isto. Sabemos que as estrelas desaparecem, a noite torna-se fria e escura como jamais o fora. Sabemos a dor que nos envolve e a vontade que temos que tudo mude.


Acorda. Saí da morte. Vive, por favor.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Da Vossa eterna menina


Já terminaram tantas fases, mas esta é diferente de todas as outras. Esta nova fase é longe de tudo. Longe de mim e do que reconheço como meu.
Há situações para as quais ninguém nos prepara simplesmente porque não há preparação possível.
Não me sei despedir e tenho medo desta saudade. Não sei começar de novo e tenho medo do desconhecido. Não sei viver longe de vocês e tenho medo de estar longe do vosso amor.
Eu sei que me acham forte e corajosa o que não sabem é que era a vossa presença que me fazia ser assim. Preciso de vocês, preciso tanto de vocês.
Meses, semanas, dias, horas, segundos longe de vocês. Tempo que nunca mais vou recuperar.
O caminho é em frente e eu vou enfrentá-lo, com vocês, com a vossa ajuda e com o vosso apoio.
Vou seguir para longe mas nunca me vou afastar, só têm que me sentir. Quando amamos alguém sabemos senti-la, e por serem as pessoas que mais me amam no mundo sei que o vão saber fazer.
Não chorem nem se preocupem demasiado. Eu vou estar sempre bem. Sempre que pensar em vocês, sempre que falar com vocês, sempre que vos ouvir, sempre que vos sentir, sempre que vocês existirem em mim. Eu vou estar sempre bem com vocês.
Desculpem-me se vos desiludir. Desculpem-me se não estiver à altura.
Amo-vos dessa forma que sentem.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Hoje


Hoje tudo em mim és tu. Hoje tudo em mim chama por ti. Hoje tudo em mim te recorda.
Vem buscar-me e leva-me contigo de volta àquelas noites que passeávamos de mãos dadas até sentir frio e encontrarmos um no outro o calor na medida certa. Trocávamos as mãos dadas por um abraço apertado e um beijo que aquecia o mundo inteiro.
Vem buscar-me e leva-me contigo de volta aos fins de tarde na praia em que tudo era perfeito e só fazia sentido ter o teu corpo junto do meu e o meu junto do teu.
Vem buscar-me e leva-me contigo de volta ao nosso tempo ou salta comigo este tempo que não é nosso.
Hoje tudo em mim é saudade. Hoje tudo em mim é amor. Hoje tudo em mim é falta.
Dá-me esse teu sorriso rasgado que ilumina todo o meu ser. Dá-me esse teu abraço que é segurança. Dá-me a tua mão que é confiança. Dá-me esse teu beijo e tenho tudo.
Hoje tudo em mim é teu. Hoje tudo em mim é por ti. Hoje tudo em mim é para ti.
Tenho saudades tuas, muitas, tantas quanto as que sentes e mais algumas, mas também tenho uma tremenda dificuldade em escrever algo para ti ou sobre ti. Não sei qual a razão mas faltam as palavras, sobram sentimentos. Todos por ti.
O que nos vale é que o meu olhar que tem o teu nome, o teu brilho e a tua personalidade. O que nos vale é que o meu olhar é o teu reflexo, não sendo necessário muito mais para saberes o quanto és especial e tudo o que sinto por ti.
Está quase meu amor, não tarda voltamos a esquecer o mundo.
Até logo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Baloiçar da vida


Tenho saudades de andar de baloiço. Tenho saudades de estar mais perto do céu. Tenho saudades de voar. Fecho os olhos e ainda me recordo de todos os pormenores. Seguia o balanço e o compasso do vento, soltava gargalhadas, livres e despreocupadas.
Agora esse tempo acabou. Há opções a fazer e decisões a tomar. Há preocupações constantes. É difícil esquecer o mundo e ficar mais perto do céu.
Por vezes, deixamo-nos controlar por todo este reboliço, por toda esta pressão, ficando tão sensíveis que até a queda de um pingo de chuva sobre a nossa pele nos faria chorar e suspeitar que o mundo se uniu para não nos compreender. Já tive dias assim.
São aqueles dias que gostaríamos de saltar, de dormir cedo para que o dia seguinte chegue bem depressa, mas são nestes dias que o sono tarda a vir. A respiração prende, as lágrimas rolam pela face, os pensamentos atormentam-nos e é, então, que chegam as dúvidas. Tudo nos passa a parecer tão frágil, que ganhamos a noção que pode quebrar a qualquer momento. O nosso mundo, o nosso mundo é afinal tão frágil.
Sem saber ando num baloiço, que não sendo de madeira, é a vida. Sigo ao sabor do instinto e do destino e sim, há dias que solto gargalhadas, mas já não são livres e despreocupadas. Mantêm apenas a espontaneidade.
Deixa-te estar aqui, comigo. Fica comigo até o amanhecer, até adormecer.
Dá-me a mão e faz-me sentir que tudo é seguro.

Agarra o baloiço, não quero andar mais.Agarra!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Bailar de um sonho


Amava a dança. Esta era a única certeza que Lúcia tinha. Sempre seguira o seu sonho e de todas as decisões que já tomara até aquele dia, essa era, sem dúvida, a decisão de que mais se orgulhava. No entanto, o sorriso feliz que oferecia às plateias que a assistiam encobria um outro sorriso. Era um sorriso seco, marcado pela história de uma vida de escolhas e sofrimento. A sua vida.
Lúcia acabava de viver um momento muito importante na sua carreira, talvez o mais importante de todos, tinha realizado um solo num dos mais conceituados teatros da sua época. Só ela sabia o quanto lhe tinha custado alcançar aquele sonho de criança. Nem sabia ao certo quantas vezes o tinha imaginado. O seu maior sonho tinha-se realizado. Tinha atingido a sua independência profissional. Tinha o seu talento reconhecido e aplaudido.
Mal o espectáculo terminou, dirigiu-se ao seu camarim onde foi encontrar o mesmo cenário de sempre. Flores, flores e mais flores, de todas as cores e espécies, acompanhadas por cartões cheios de nada, escritos com caligrafias perfeitamente desenhadas. Lúcia deixou que o seu corpo perdê
-se a força e ao sentar-se ficou posicionada precisamente em frente ao espelho verdadeiramente gigantesco do seu camarim. Há muito tempo que evitava aquela situação, enfrentar-se a si mesma. Ao longo da sua vida teria enfrentado o mundo inteiro se necessário, mas sempre fora incapaz de enfrentar-se a si própria. Ouvir os seus sentimentos. Ao olhar o reflexo do seu próprio olhar, perdeu o escudo que carregava consigo e começou a chorar, tapando a sua face com ambas as mãos. Julgando poder esconder-se de si própria.
Lúcia fugira de casa muito cedo, o seu desejo de dançar profissionalmente afastava-se muito dos bons costumes de dona de casa planeados pelo seu pai, na verdade por qualquer chefe de família daquela época para as suas filhas. A sua mãe sofria por ela, mas nunca ousou opor-se ao marido. No dia em que Lúcia fugiu de casa o seu pai ordenou que nunca mais se pronunciasse o nome da filha em sua casa, muito provavelmente devido à discussão que teria tido com Lúcia na noite que antecedeu a sua fuga e da qual nunca ninguém teve o relato, nem mesmo Adelaide, mãe de Lúcia, que nunca mais fora a mesma desde o desaparecimento da filha.
Lúcia chorava a solidão de todos aqueles anos por oposição à luta do sonho da sua vida, ou pelo menos do sonho que a fazia feliz em criança, com o passar dos anos duvidava se era o seu sonho que a faria continuar, se o seu orgulho e vontade de mostrar ao seu pai que estava enganado ao gritar-lhe que ela não servia para nada. Estas palavras marcaram-lhe para toda a vida, ouvia-as todas as noites no silêncio das pensões velhas e imundas, que só mudavam de localidade, nunca de condições.
Para trás deixou não só a família mas também um grande amor, o seu primeiro amor. E, naquele momento, no frio do seu camarim nada lhe parecia fazer sentido. Só se sentia viva quando dançava. Quando a música terminava tudo o que deixara para trás corroía-a por dentro. Nos últimos tempos sentia uma vontade imensa de voltar a casa, à sua terra, à segurança do seu lar. Sentia-se ainda mais triste pelo facto de ter mandado um convite para a sua estreita para a direcção da sua casa, cuja destinatária era a sua avó paterna. Apenas a correspondência desta não era aberta pelo seu pai, sendo que na carta pedira para que informasse também a sua mãe Adelaide, para que pudessem vir as duas vê-la. Julgara ter a certeza da presença de ambas, mas não as avistou dos bastidores nem houve ninguém que perguntasse por si aos assistentes.
Lúcia limpava as suas lágrimas, sendo invadida por um cansaço extremo que a fez começar a arrumar tudo para que pudesse dirigir-se ao hotel onde estava hospedada, ao longo da sua carreira foi tendo cada vez mais posses financeiras, até que actualmente podia considerar que tinha uma boa poupança.
Ao chegar ao hotel, Lúcia foi informada que estaria alguém à sua espera no quarto. Lúcia sentiu o coração disparar, a possibilidade de rever a sua mãe ou a sua avó deixava-a tão vulnerável e tão feliz. Contudo, ao entrar no quarto foi surpreendida pela presença de um homem de cabelos brancos, sentado numa cadeira de rodas posicionada na direcção oposta à porta, de forma a vislumbrar a linha do horizonte. Lúcia sentiu que o seu corpo tinha a leveza de uma pena, como se pudesse cair a qualquer momento, sem sequer fechar a porta dirigiu-se ao homem que a esperava. Caiu a seus pés, deitou a cabeça no seu colo, agarrou nas suas mãos e desatou a chorar. Libertou as lágrimas que evitou durante todos aqueles anos.
- Filha, minha filha, procurei-te estes anos todos, mas as tuas constantes viagens, de cidade em cidade, devido ao teu sonho, bem sei, tornaram impossível o nosso encontro. O tempo que demorava a descobrir a tua paragem era o mesmo que demoravas a viajar rumo à próxima. – disse o pai de Lúcia com a voz mais serena que ela alguma vez escutara, o que a fez olhar em sua direcção.
- Pai... – começou Lúcia, mas depressa os dedos do seu pai pousaram sobre os seus lábios, impedindo-a de continuar.
- Lúcia, eu estou muito doente, e sei que vou morrer dentro em breve, mas a minha alma não deixa o meu corpo partir, não sem antes te pedir perdão, te pedir todos os perdões do mundo, na certeza que me irás perdoar…mas acima de tudo não sem antes dizer-te que és a melhor bailarina do mundo, minha querida. Hoje, vi a melhor bailarina do mundo. Estou muito orgulhoso, Lúcia. Parabéns. Agora deixa-te ficar aí, volta a descansar a tua cabeça no meu colo, para eu poder partir, minha pequenina. Não pares de sonhar nunca.
Lúcia, obedeceu desejando apenas eternizar aquele momento. De imediato deixou de ouvir a respiração do seu pai, e só conseguiu sussurrar:
- Oh, pai, eu amo-o.
Em sua direcção vieram três sombras que só ao chegarem bem perto de si, reconheceu. A sua mãe, a sua avó e o seu irmão.
Todos reunidos num abraço cuja força só não era mais forte que a luta por um sonho.