segunda-feira, 21 de junho de 2010

Leve Sopro


Neste instante que é a vida o fim chega demasiado depressa, entre sorrisos e lágrimas tudo se desvanece num só sopro.
Abro a mão e deixo cair os grãos de areia, um a um, cristalinos e distintos dançam ao sabor do vento até silenciosamente posarem no areal. Deixo que a espuma da última onda me toque nos pés, espero que a próxima onda se forme e observo-a até que quebre, desde o seu início até ao seu fim. O pôr-do-sol pontua o final do dia, o final do dia de hoje.
É o instante da vida que quero agarrar com as duas mãos, agarrando-me a vocês que são a vida.
Tenho saudades da felicidade que foi e vontade de viver a que virá. O limiar entre o que foi e o que será determina o compasso desta dança em pontas.
Hoje só quero correr para os vossos braços e ser feliz por vos ter, hoje só quero relembrar que vos amo e que sinto a vossa falta a cada inspiração e expiração. Falta pouco para que os vossos braços se tornem o porto de abrigo da minha chegada e é esse momento que aguardo agarrando o instante da vida com todo o cuidado para que nada se desvaneça nem quebre, agarrando-me a este amor que nos liga. Porque este instante que é a vida quero vivê-lo ao vosso lado.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ida


A luz cessa a cada ida tua, a luz escurece a cada volta tua para onde não pertences, longe de mim.
Perco-me na recordação da felicidade que a noite anuncia quando as nossas almas estão de mão dada, quando o sorriso começa nos meus lábios e termina nos teus.Nesses teus olhos castanhos reais procuro a verdade, a nossa verdade, essa verdade que transforma os dias em doces momentos para viver, essa verdade que me acompanha no azedo da tua ausência.
Hoje, a noite está mais escura do que ontem,por isso, não vou à varanda à procura de estrelas cadentes nem tu me vais fechar entre os teus braços como sempre fazes. Hoje, não vou adormecer nos teus braços, por isso, não vou adormecer com o coração cheio de felicidade. Hoje vou sentir saudades tuas.Hoje sinto saudades tuas.
À despedida pedi-te o que te peço sempre :" Não demores a voltar", agora peço-te para que voltes, para que não esperes pelo dia que marcamos juntos no calendário da nossa história,peço-te que chegues.Oiço os teus passos mas demoras a abraçar-me,sinto o teu cheiro mas demoras a aproximar-te, vejo a tua sombra mas demoras a chegar, toco-te mas demoro a sentir.
Vem, para sempre.

Incompleto


(...)O Sol abraça a linha do horizonte e hoje não voltará a brilhar, passo a passo deixo na areia molhada as dicas para quem não souber que caminho seguir. Ao quebrar de cada onda relembro todos os planos que tinha para o dia de hoje e que não realizei, experimentando uma estranha sensação de ansiedade.

Fecho as mãos com força na esperança que renasça em mim o sorriso de outrora, a coragem de outrora. Os cabelos em forma de caracóis dançam num vento que sopra cortante na pele macia e branca, os braços fecho-os no peito e tento respirar quando o ar me falta e sigo na esperança que vá encontrar sempre espaço para o próximo passo entre o quebrar de cada onda(...).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Horizontes azuis



Faço das águas límpidas o oceano no qual mergulho e me entrego. Perdi as horas e o tempo, faço do presente tempo passado e eterno.
Espalho pétalas de rosas nesse oceano que me leva até onde quero ir, em movimentos suaves e doces nado nas águas sem movimento, mas com vida. Há muito que não ambiciono o porto que de tão seguro perdeu o equilíbrio ente os opostos, mantendo apenas o que é igual.
Esta noite, faço da Lua confidente de desejos suspensos no ar, faço das estrelas pedras de riacho nas quais salto de uma em uma. Todas as desilusões amarrei-as em laços flutuantes e deixei-as correr na corrente mais forte, sem querer conhecer o rumo que tomaram.
Quero aprender outros caminhos que não os que me levam exactamente aquele porto que de tão seguro é inseguro, quero vestidos de seda cor de azul água que esvoacem no ar e me levam a conhecer novos horizontes, pelos quais me apaixonarei e quererei ficar sem nunca mais partir.
Esta noite quero ir e ficar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Acto I


A noite vestiu-se de azul e caiu sem lua ou estrelas, enche o palco de luz e brilho para quem nele quiser actuar.
Sento-me na primeira ou na última fila, é indiferente, a peça é só uma e conta apenas uma história que não a minha. Mais tarde em pontas de pés, farei deste e de todos os outros o meu palco e do último o primeiro lugar. Mais tarde quando o Sol brilhar e a cortina baixar.
Quero do grito o eco da tua voz, da tua actuação e da tua história. Faz da tua peça o meu cenário e da minha história mil e um conto em que és personagem principal.
A noite caiu, os personagens perderam a fala, é hora de silenciar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Canela


Como uma pena que se deixa mover ao sabor e som do vento, também eu me deixo ir neste rumo. As noites trazem a brisa fria da distância que me separa de mim mesma.
Esta noite, como em todas as outras, apanho banhos de luar e estrelas, à espera que as noites de verão me voltem a encontrar.
Vou e venho, conto as pedras do caminho, salto e contorno estas voltas e reviravoltas, na esperança de seguir sempre o melhor caminho.
Nesta altura, em que as folhas se deixam cair do alto que ocupam, eu calço cristal e assumo os passos de uma dança que se quer prefeita. Passo e contrapasso, uma pirueta e mais passos e contrapassos. E, agora, relembro aquelas noites de verão, que assim o eram não por ser verão mas por serem intemporalmente quentes, muito quentes, que quase me fizeram esquecer desta coreografia.
Não foi fácil aprendê-la e ensiná-la ninguém pode, mas eu aprendi-a e quase a desaprendi.
No fumegar do chá que há muito ferveu, também eu me sinto a fervilhar por tudo o que tenho que voltar a aprender.
Sorriu e deixo cair uma lágrima ao dizer baixinho, muito baixinho que posso aprender muito, mas nunca vou aprender a estar sem vocês, porque não se pode aprender a não ter vida.
Enrolada no sabor a canela do chá que bebo, enrolo-me em vocês e rebolo a rir nesse amor que me dão.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A primeira chuva de Outono é doce


A primeira chuva de Outono cessa a sua queda para que o Sol possa pôr-se e, por fim, ilumine as gotículas de água suspensas nas lacunas dos tapasóis. A primeira chuva de Outono é doce.
No meu quarto, do lado de dentro da janela posso contemplar os raios luminosos a ultrapassarem as pequenas gotículas que, agora, fazem lembrar pequenos diamantes.
Perdi a conta de quantas vezes fiz malas, recordações e memórias de abraços, beijos e sorrisos, tendo simultâneamente que desfazer malas, lágrimas, sofrimento e saudades.
Neste fim de tarde, deixo que as gotículas se confundam com as minhas lágrimas e faço dos raios de Sol a força que preciso para mais uma vez partir.
Pensei que desta vez fosse mais fácil, afinal já o fiz quando o pensei impossível, mas no regresso trouxe a convicção de que já não voltaria a partir como se tivesse sido duro mas já tivesse feito o caminho que tinha que ser feito, contudo só terminei a primeira etapa.
Neste fim de tarde, deixo que o meu corpo se entregue a si mesmo, esperando que se solte de todos estes laços de amor e carinho e os amarre a ele próprio.
Neste fim de tarde, vou deixar o sol pôr-se e a noite subir ao céu para que a primeira chuva de Outono volte a cair ,doce. Abrirei todas as janelas da casa e todas as janelas do meu ser, sairei em qualquer uma delas e deitada entre as rosas caídas de Outono vou deixar-me chorar e que tudo chore a minha passagem até ao meu regresso.


P.S.- Obrigado por fazerem de mim o que sou.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Dança perfeita


No silêncio da noite descubro-me na dança da sombra e do reflexo que são meus.
O meu ser segue o compasso da melodia, que de tão longínqua parece fugir entre os movimentos das minhas pernas.
A Lua é a única testemunha desta dança perfeita de mim para mim.
Há muito tempo que ansiava por este céu de estrelas, há muito tempo que ansiava libertar-me de tudo o que perturbou o compasso perfeito da minha dança.
A cada pirueta e passo recupero o ar, o fôlego que me faltava para continuar a compor esta dança. Na sombra escura dos traços do meu corpo em movimento o vestido não perde o branco brilhante que o caracteriza e eu não deixo de sorrir por o reconhecer.
É este branco que ajusta os passos e ampara as quedas, que também são parte integrante desta dança. Sem este branco nunca teria havido dança, nem noite, nem Lua, nem estrelas. É este branco que me inspira a dançar, a sorrir e a ser feliz.
Nesta noite fria, danço sem parar porque roubaste todo o ar que era meu, só meu, era branco de tão meu que era. Nesta noite fria, danço sem parar porque me fizeste cair e rasga-te o branco do meu ser com toda a cobardia e egoísmo que existe em ti.
Nesta noite fria, só a Lua é testemunha desta dança do meu ser que se ampara nesse vosso branco que é tudo, só ele é tudo.
Obrigado.
Adeus.